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O sentimento de culpa e seus efeitos

Os pais e as mães do mundo atual vivem sofrendo com a culpa que sentem em relação a seus filhos. Os motivos que eles encontram para justificar tal emoção se concentram em basicamente um: o de não conseguirem honrar o compromisso afetivo que têm para com os filhos. E por que é que eles acham que falham nisso que consideram um dever? Ora porque têm um pouco tempo para conviver com eles, ora porque não conseguem dr a eles tudo o que eles desmandam, ora porque precisam tomar atitudes que provocam reações de contrariedade, frustração e descontentamento, ora porque não conseguem proteger os filhos das vicissitudes da vida e dos sofrimentos que ela impõe.

Tanta culpa provoca vários efeitos, é claro, e um deles é bem curioso; os pais têm desvalorizado suas demonstrações de efeito e de admiração tanto verbais quanto físicas aos filhos.

Apesar de a maioria das mães e dos pais acreditam que trabalham demais e, por isso, abandonam os filhos. Mesmo quando as mulheres não trabalhavam fora e os homens correriam menos, a vida deles não era tão dedicada aos filhos. Os afazeres com a administração da casa, o compromisso de abastecimento material de todos e o relacionamento entre marido tomavam muito mais tempo do que o relacionamento com os filhos. Estes não precisavam de tantas provas de amor dos pais: a presença firme e tranqüila deles bastava para que sentissem a segurança necessária para viver.

O estilo corrido da vida atual nas grandes cidades deixa, de fato, um período de tempo menor dos pais para que estes estejam com os filhos. Em compensação, nos finais de semana, feriados e férias e no pouco tempo em que estão juntos em casa, é um grude entre eles. Mas será que os filhos se ressentem da falta de tempo dos pais para eles? Não creio. A falta de disponibilidade pessoal para ser adulto e pai ou mãe deixa um vazio bem maior.

Com essa identificação absoluta entre presença física freqüente e prova de amor, os pais não mais acreditam que um beijo, um abraço, uma manifestação carinhosa em palavras valha algo para os filhos. Por isso, toda vez que precisam ou querem expressar algo carinhoso a eles, acham que precisam fazer isso de forma material.

Não basta dizer ao filho o orgulho que sentem quando percebem que ele conseguiu se esforçar nos trabalhos escolares: é preciso dar um presente. Não basta um elogio quando o filho toma uma atitude que os pais consideram digna: é preciso dar um doce, um chocolate, etc. Não basta responsabilizar o filho por uma tarefa familiar que reconhece seu lugar na família: é preciso pagar a ele por isso. E é assim que, sem perceber, os pais vão dando pouco valor aos sentimentos e grande valor às sensações, o que aponta um norte de vida aos filhos. É assim também que os pais ensinam aos filhos que mais importantes do que a relação de pertencimento familiar e a vinculação efetiva entre os integrantes da família são as benesses materiais que ela pode oferecer a seus descendentes.

Uma tira de quadrinhos do personagem Calvin, de Bill Watterson, fez uma referência nesse sentido que merece ser citada. A mãe de Calvin comunicou que ele teria, a partir daquele dia, a responsabilidade de arrumar sua cama. O garoto perguntou quanto receberia por aquilo e a mãe respondeu-lhe que nada. Calvin a interpelou perguntando como ele saberia o valor da obrigação se não teria recompensa financeira por ela. A mãe, categórica, respondeu: “Palavra de mãe”.

É isso: palavra de pai e de mãe vale muito mais – ou deveria valer – do que guloseimas, dinheiro e presentes.

ROSELY SAYÃO – Folha de São Paulo

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